Dizem que quando alguém que fez parte da nossa vida se vai, leva consigo uma história, encerra um ciclo, fecha um livro, vira-se uma página.
Essa madrugada fui avisada via sms que um tio meu, presença marcante em minha infância havia deixado esse mundo, o tio Lelo, marido da tia Reny, irmã do meu pai. Ela se foi em novembro de 2008...
Enquanto me revirava na cama, tentando pegar no sono, minha infância passou como um flashback diante de meus olhos... E novamente me lembrei da história dos bolsos...
Lembrava-me das férias em Guaratuba, na casa da tia Reny e do tio Lelo, eu e minha irmã mais nova, parecendo dois bifes à milanesa, salgadas de mar e areia e nosso tio Lelo nos levando até a Baía de Guaratuba, dizendo que com ele nós aprenderíamos a mergulhar.
Ele tinha conosco uma paciência fora do comum. Nos ensinou a boiar, nos ensinou a mergulhar. Com ele a natação era uma prática simples e fácil, ele dizia:
- Janu, você já nasceu peixe, sereia talvez, agora é só dar braçadas e mexer essa cauda!
Eu e minha irmã caíamos na gargalhada e na hora de voltar pra casa, lá estávamos nós, uma de cada lado do tio Lelo, de mãos dadas com ele, que nos ajudava a segurar as conchinhas que tínhamos catado na Baía de Guaratuba.
Quando a cara enfeiava, porque era hora de irmos embora, ele dizia: - Meninas, amanhã tem mais!
E tinha mesmo. Não importava se chovia, e lá estávamos nós: eu, minha irmã e nosso professor de mergulho!
Tio Lelo fazia artesanato com a tia Reny, e toda vez que a gente chegava lá, tinha um presente esperando por nós. Minha boneca tinha ganhado cobertor e cama novos, a da minha irmã ganhava um vestido e um carrinho de passeio...
Eu e a minha irmã ficávamos por horas querendo ajudar o tio Lelo nos seus artesanatos, e ele na sua paciência infinita, nos dava pedacinhos de pau para lixarmos...
Riamos muito dele e com ele. Ele era a figura rara, o tio Lelinho como a gente o chamava.
Ao adentrar o portão da casa dele, nosso mundo virava fantasia... A tristeza não tinha espaço...
Lembro de quando ele pegou um sapo e saiu correndo atrás de nós duas, das marcas que ele tinha nas costas... Dizia que eram tiros de canhão de quando ele foi pra guerra... A gente sabia que não era verdade, a gente nunca soube a origem das marcas, mas isso não importava.
Lembro de quando a gente brincava de balanço no jardim da casa da vó Maria e a briga que era entre eu e minha irmã na disputa pelo colo do tio Lelo.
Mas, como todo guerreiro, soldado, cidadão, esse também estava cansado das batalhas...
Hoje a cortina do show da vida do tio Lelo se fechou. Ele deixou o palco sob os aplausos dos poucos espectadores que acompanhavam essa trajetória que estava mesmo prestes a findar...
Não tem risada, não tem conchinha, não tem mar...
Tive uma infância muito feliz, e agradeço muito ao tio Lelo por ter me ensinado coisas que escola nenhuma jamais vai ensinar. Agradeço a ele por ter proporcionado a mim e a minha irmã as nossas melhores férias...
Obrigada tio Lelinho...
Um beijo bem grande da Janu...
Meu pai, a tia Reny e tantas outras pessoas devem estar fazendo festa aí com a sua chegada!
Vá em paz...
Na imagem, a Baía de Guaratuba...
