Marina Tortelli Fotografias
Nessa semana, fomos surpreendidos com dois socos no estômago.
Duas pessoas bastante diferentes, que não se conheciam e nem sabiam da
existência uma da outra saíram de cena... O jornalista/cinegrafista Santiago
Andrade, no Rio de Janeiro, e o catador de papel Bocão (Antônio Ribeiro
Cordeiro), em Curitiba.
A semelhança entre eles? A violência que os vitimou e o
enfoque dado aos casos.
Em tempo: Bocão foi agredido enquanto dormia na rampa do Teatro Guaíra na madrugada de 24 de janeiro. O catador de papel foi atingido por um covarde, que desferiu pedradas nele. Depois de duas semanas no hospital, Bocão não resistiu à gravidade dos ferimentos. O agressor e assassino ainda não foi identificado.
Bocão não ganhou nota da presidência da república em rede
social e sequer foi mencionado no Jornal Nacional... Pelo contrário... Poucos foram
os veículos que falaram sobre ele. E para piorar, o processo de velório e sepultamento
de Bocão quase foi impedido pela burocracia e pelo “sistema”. Esse Grande irmão* que nos observa. Os dois
sepultamentos, o de Bocão e o de Santiago aconteceram no mesmo dia, mas não é
sobre a diferença e semelhança entre ambos que eu quero falar...
Bocão, dizem as pessoas que o conheceram, era um homem
alegre, de coração que não cabia no peito... E prova disso é o fiel
companheiro, Polaco, que esteve ao seu lado até o momento em que a lápide
separou os dois mundos...
Bocão dividia a comida com o cãopanheiro, no inverno, vestiu o bichinho com uma capinha de plush, a fim de amenizar a temperatura gelada que se estabeleceu em Curitiba em 2013.
Eu não conheci o Bocão, talvez tenha visto ele várias vezes,
amante do teatro que sou e assídua frequentadora do Guaíra, a casa de Bocão.
Talvez tenha cruzado com ele na rua, talvez ele tenha sido aquela pessoa que
perguntou a hora para mim, para você, e que talvez a gente tenha ignorado...
Ele devia ser aquela pessoa que se protegia da chuva, debaixo daquela marquise em
que você também usou para se proteger, mas com a chegada dele, você e eu
saímos... Ele era aquela pessoa que estava com fome, frio, e a gente fingiu que
não viu, afinal, ele era mais um, não é mesmo?
Talvez a gente tenha até atravessado a rua quando ele vinha
com o Polaco na direção oposta...
Eu admito, sem vergonha nenhuma: Eu chorei pelo Bocão,
chorei por todos esses anônimos, vítimas da violência. Chorei por estarmos
perdendo pessoas para a ignorância...
A gente não sabe ainda quem fez essa barbaridade com o
Bocão, mas já sabemos quem acendeu o rojão e ceifou a vida de Santiago...
Eu chorei porque eu não conheci o Bocão... Chorei porque em
algum momento eu cruzei com ele e me fiz de sonsa... Chorei porque a gente vive
tão “em si mesmado”e não somos capazes de olhar pro outro ser humano, pro outro
lado, por outro ângulo...
Chorei porque eu só soube que Bocão existia por conta dessa
tragédia, mesmo ele estando tão perto. E chorei mais ainda quando vi a
homenagem que os seus amigos fizeram, em parceira com a FAS (Fundação de Ação
Social), para dar-lhe um último adeus decente...
E para arrematar as lágrimas,
que até agora não pararam de cair, chorei ainda mais quando vi a despedida
única e solitária de Polaco... Digo única e solitária porque só ele se
despediu, enquanto o seu dono estava ali, naquele caixão.
Acho impossível que você veja as imagens e não se
emocione... E por conta disso, compartilhei o álbum dessa despedida linda que você pode ver clicando
aqui!
Quando eu escolhi ser jornalista, muito mais do que “gostar
de escrever”, que é o que diz a maioria dos aspirantes à profissão, escolhi
pelo fato de não me conformar, de não me calar perante as injustiças e violência
gratuita a que somos submetidos diariamente, seja nas ruas, em nossas casas, em
nosso ambiente de trabalho quando o chefe torce o nariz, te olha de cara feia e
te diz absurdos, simplesmente por ser chefe e ter a ele atribuído um “poder”
tão abstrato, que o torna (na sua visão medíocre), superior.
Bocão, eu espero, sinceramente, que você descanse em paz,
que os seus anos de luta na rua não passem em branco... Que a sua morte sirva
para que a gente seja mais humano, se importe com os outros, porque todo mundo
tem uma história... Eu, você que está lendo...
Vai em paz, Bocão! Que bom que você teve esses amigos tão
especiais, que não desistiram de você em nenhum momento, que não se
conformaram... Parabéns a essas pessoas que eu não conheço! Com certeza, o
mundo deixou de ser um lugar melhor porque você não está mais nele...
A você, o meu respeito e a minha singela homenagem!
A gente se cruza na outra existência!
Descansa aí, guerreiro, e cuida do Polaco onde você estiver!
*Big Brother no original, é um personagem
fictício no romance 1984 de George
Orwell.
PS: As fotos, eu peguei do álbum do Sebastiao Hassan Ali Nascimento.





